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20.10.20

Transtorno Disfórico Pré-menstrual: Conheça e aprenda a identificar

Felipe Ornell


Nas últimas semanas, discutimos a complexidade dos transtornos depressivos, condições com múltiplas formas de apresentação e níveis de gravidade, que frequentemente são contempladas erroneamente sobre o prisma reducionista da tristeza. Uma das desordens pouco conhecidas que integra o espectro da depressão é o transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), uma forma grave de síndrome pré-menstrual (SPM).

 

Embora os sintomas pré-menstruais sejam reconhecidos há bastante tempo, os critérios diagnósticos para reconhecimento do transtorno (apresentação grave da condição) foram especificados apenas recentemente. Nos Estados Unidos, aproximadamente 70% a 90% das mulheres em idade reprodutiva reclamam de pelo menos algum desconforto pré-menstrual, em geral a apresentação é leve e os sintomas não interferem em sua vida pessoal, social ou profissional; no entanto, 5% a 8% apresenta sintomas moderados a graves que podem causar sofrimento significativo e prejuízo funcional. Em casos severos, há relatos de sintomas psicóticos (delírios e alucinações) e de comportamento suicida.

 

As principais características do TDPM são as oscilações de humor, ansiedade, irritabilidade e disforia, porém, sintomas comportamentais e físicos também são frequentes. Estes sintomas são evidenciados em intensidade grave, com características similares ao transtorno depressivo maior e ao transtorno de ansiedade generalizada. A apresentação dos sintomas ocorre em um padrão cíclico nos dias que antecedem a menstruação, atingindo o auge perto do início da menstruação e diminuindo após o período menstrual.

 

Sintomas do transtorno disfórico pré-menstrual

 

Para o diagnóstico de TDPM, a mulher precisa apresentar pelo menos cinco critérios simultâneos, os principais sintomas são:

Alterações no humor

  • Sentimentos de tristeza, depressão, desesperança e desvalor.
    • Mudanças de humor repentinas.
    • Aumento da irritabilidade e / ou raiva; conflitos frequentes com familiares ou no trabalho.
    • Aumento da ansiedade ou sensação de estar no limite o tempo todo.

Alterações no comportamento

  • Falta de energia e fatiga.
  • Diminuição do interesse em atividades normais.
  • Problemas de concentração.
  • Mudanças no apetite, seja comer em excesso ou desejar um alimento específico.
  • Mudanças no padrão de sono (hipersonia ou insônia).
  • Sentimento de opressão ou de estar fora de controle.

Alterações somáticas

  • Inchaço ou sensibilidade nos seios.
  • Dor nas articulações ou músculos.
  • Uma sensação de inchaço ou ganho de peso.
  • Dores de cabeça.

Estes sintomas devem ser graves o suficiente para interferir significativamente no funcionamento social, ocupacional, sexual ou escolar, e não pode se tratar apenas da exacerbação de outro transtorno prévio (embora possa ser concomitante com outras condições psiquiátricas). A diferença para outros transtornos com características semelhantes é que os sintomas acompanham o seu ciclo menstrual, portanto, eles começam a melhorar quando a menstruação ocorre e geralmente desaparecem quando a menstruação termina.

 

Fatores de risco

  • Genético – a herdabilidade varia entre 30 e 80%, com o componente mais estável dos sintomas pré-menstruais.
  • Eventos traumáticos
  • Tabagismo
  • Obesidade
  • Mudanças nos níveis hormonais

 

Diagnóstico diferencial

O TDPM possui semelhanças com outros transtornos ou doenças, por isso, estas condições precisam ser observadas, as principais são:

  • Outros transtornos depressivos.
  • Outros transtornos de ansiedade.
  • Doenças da tireoide (hipertireoidismo ou hipotireoidismo).
  • Mastalgia.
  • Outros transtornos mentais (ex., transtornos depressivos e transtornos bipolares, transtornos de ansiedade, bulimia nervosa, transtornos por uso de substância) e condições médicas condições médicas (ex., cefaleia, asma, alergias, transtornos convulsivos) podem piorar na fase pré-menstrual.

 

O TDPM não seria uma forma de medicalizar emoções normais antes da menstruação?

Não. Apesar de haver discussões defendendo a ideia de que esta condição pode potencializar o estigma sobre as mulheres, é importante ressaltar que como citamos anteriormente, até 90% das mulheres têm sintomas leves de SPM, uma parcela relativamente pequena irá desenvolver TDPM, condição que extrapola a barreira da normalidade. Logo, como se trata de um transtorno, o diagnóstico e a implementação de medidas terapêuticas precoces pode melhorar muito a qualidade de vida.

 

Tratamento

Tendo em vista que, geralmente, se trata de uma condição crônica e recorrente, o tratamento precisa pesar custo/benefício e efeitos adversos. Além disso, por não ser uma doença, mas uma condição, não há um protocolo específico, porém, há perspectivas de tratamento que podem reduzir a intensidade dos sintomas e melhorar muito a qualidade de vida.

Mudança no estilo de vida

  • Descansar e dormir o suficiente (no mínimo sete horas por noite).
  • Praticar atividade física regularmente (auxilia na redução tanto do inchaço como a irritabilidade, a ansiedade e a insônia)
  • Fazer uso de técnicas de redução de estresse (meditação, exercícios de relaxamento, yoga).
  • Evitar atividades estressantes.
  • Consumir mais proteínas e menos açúcar e cafeína (incluindo a cafeína encontrada no chocolate).
  • Consumir uma maior quantidade de frutas, verduras, leite, carboidratos complexos (por exemplo, os encontrados em pães, massas, feijões e tubérculos), alimentos com alto teor de fibras, carnes com baixo teor de gordura e alimentos com alto teor de cálcio e vitamina D.
  • Consumir menos sal, que muitas vezes reduz a retenção de líquidos e alivia o inchaço.

Medidas farmacológicas

  • Antidepressivos - inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), classe de antidepressivos que aumenta os níveis de serotonina, são eficazes para melhorar as alterações de humor que antecedem o período menstrual e podem ser usados de maneiras especificas (continuo ou em intervalos).
  • Contraceptivos hormonais- impedem a ovulação, o que pode minimizar os sintomas pré-menstruais.
  • Vitaminas e suplementos incluindo a vitamina B6, vitamina E, cálcio e magnésio.
  • Uso de fitoterápicos como vitex agnus castus (chasteberry) também  demonstra ser uma alternativa
  • Analgésicos - podem ajudar a aliviar dores ou desconfortos físicos, como dor de cabeça e sensibilidade nos seios.
  • O uso de benzodiazepínicos (ex: alprazolam) já foi uma indicação, todavia atualmente seu uso não é recomendado.

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Felipe Ornell, Psicólogo

Isabela Serafin Couto, Médica

 

Referências

 

APA. (2013). Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders (DSM-5). Washington: American Psychiatric Association.

Andrade C. (2016). Premenstrual dysphoric disorder: General overview, treatment strategies, and focus on sertraline for symptom-onset dosing. Indian journal of psychiatry58(3), 329–331. https://doi.org/10.4103/0019-5545.192014

Hantsoo, L., & Epperson, C. N. (2015). Premenstrual Dysphoric Disorder: Epidemiology and Treatment. Current psychiatry reports17(11), 87. https://doi.org/10.1007/s11920-015-0628-3

Mishra S, Elliott H, Marwaha R. Premenstrual Dysphoric Disorder. [Updated 2020 Sep 5]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2020 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532307/

Reid RL. Premenstrual Dysphoric Disorder (Formerly Premenstrual Syndrome) [Updated 2017 Jan 23]. In: Feingold KR, Anawalt B, Boyce A, et al., editors. Endotext [Internet]. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; 2000-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK279045/

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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