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15.09.20

Suicídio | Como identificar que alguém está em risco?

Felipe Ornell


Na semana passada falamos sobre a importância da conscientização sobre o suicídio, um problema de saúde pública que, por muito tempo, foi negligenciado (CLIQUE AQUI para acessar o texto). Também comentamos a relevância do Setembro Amarelo na ampliação deste debate e na mitigação do preconceito, que frequentemente impede a busca por auxílio.

Além do acesso facilitado ao tratamento, a prevenção parte da sensibilidade das pessoas próximas em captar sinais e comportamentos de risco e a partir disso auxiliar na busca de alternativas. Sempre que abordamos esta pauta, uma série de questionamentos surgem: como identificar um potencial suicida? Como agir diante da identificação do risco? Como e onde buscar ajuda? É sobre estes elementos que iremos discutir hoje

Fatores de risco

Apesar das causas do suicídio serem heterogêneas, há alguns fatores de risco bem estabelecidos.

Fatores de risco psiquiátricos

  • Presença de transtornos mentais (depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia...) principalmente sem tratamento ou em fase aguda.
  • Dependência de substâncias psicoativas (álcool ou outras drogas).
  • Transtornos de personalidade.

Outros fatores de risco

  • Tentativa de suicídio anterior.
  • Ideação suicida.
  • Impulsividade elevada.
  • Agressividade elevada.
  • Histórico de suicídio na família.
  • Isolamento social.
  • Ruptura de relacionamentos conjugais e interpessoais
  • Ser separado / divorciado / viúvo, principalmente sem rede de apoio.
  • Desesperança.
  • Estressores relacionados ao trabalho (e burnout).
  • Luto.
  • Problemas financeiros.
  • Ser idoso.
  • Pertencer a populações minoritárias.
  • Doenças crônicas não tratáveis.
  • Dor crônica.
  • Estar intoxicado por alguma substância.
  • Ter presenciado ou sido vítima de guerras, violências, traumas, abusos ou discriminação.

Existem sinais que podem indicar que uma pessoa está em risco?

Sim, uma forma de recordar destes sinais é a sigla DDDI: desesperança desespero, desamparo e impulsividade. Este conjunto de fatores pode indicar que há um risco elevado, principalmente quando ocorre simultaneamente aos elementos discutidos anteriormente.  Por muito tempo houve um mito de que o suicídio ocorre sem aviso prévio, atualmente sabe-se que isso é um mito. Em geral as pessoas sob risco de suicídio costumam falar sobre morte e suicídio mais do que o comum, confessam se sentir sem esperanças, culpadas, com falta de autoestima e têm visão negativa de sua vida e futuro. Essas ideias podem estar expressas de forma escrita, verbal ou por meio de desenhos. Há alguns sinais óbvios e que frequentemente são ignorados. Destacamos alguns deles abaixo:

Sinais verbaisHá algumas frases tipicamente ditas por pessoas com ideação suicida e que podem fornecer pistas importantes:

  • “não tenho mais utilidade”
  • “estou muito cansado para continuar”
  • “quero que Deus leve”
  • “vou desaparecer.”
  • “vou deixar vocês em paz.”
  • “eu queria poder dormir e nunca mais acordar.”
  • "ninguém sentirá minha falta quando eu for embora"
  • “é inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar.”

Sinais comportamentais:

  • Desinteresse por atividades que antes a pessoa apreciava.
  • Alterações na alimentação/sono.
  • Isolamento.
  • Tristeza excessiva
  • Descuido com a aparência.
  • Tratar de assuntos pendentes (fazer um testamento repentinamente, por exemplo).
  • Calma repentina e atípica.

Agora que você já sabe quais os principais fatores de risco, o passo seguinte é exercitar a sensibilidade.

Como auxiliar pessoas em risco?

Quatro elementos são importantes aqui:

  • Identificar o risco.
  • Manejar a crise momentânea (manter a pessoa viva enquanto busca alternativas de auxílio).
  • Avaliar o grau de risco (há plano ou apenas pensamento? A ideação é aguda ou crônica?)
  • Encaminhar para tratamento especializado.

Para isso converse (acolha), acompanhe (não deixe a pessoa sozinha), busque ajuda profissional, proteja (retire facas, cordas, armas de perto, cuidado com janelas ou sacadas). Para abordar a pessoa é importante tomar alguns cuidados:

  • Busque um local reservado e sem elementos que possam oferecer risco.
  • Faça ela se sentir acolhida e escutada, respeitada e levada a sério.
  • Seja empático, demonstre consideração pelo sofrimento da pessoa, não diminua a dor dela.
  • Demonstre apoio, inclusive na busca por alternativas.
  • Tente descobrir se a pessoa está com pensamentos suicidas ou se há planejamento.
  • É fundamental descobrir quais métodos a pessoa cogitou, isso ajuda a proteger.
  • Aborde os motivos que ela tem para não fazer.
  • Não tente “resolver a vida da pessoa”, possivelmente não há um problema, mas vários. Ajude a manejar a crise agudamente e busque auxílio especializado.
  • Incentive a pessoa a procurar ajuda de profissionais de serviços de saúde, de saúde mental, de emergência ou apoio em algum serviço público. Ofereça-se para acompanhá-la a um atendimento.
  • Se você acha que essa pessoa está em perigo imediato, não a deixe sozinha. Procure ajuda de profissionais de serviços de saúde, de emergência e entre em contato com alguém de confiança, indicado pela própria pessoa
  • Se a pessoa com quem você está preocupado(a) vive com você, assegure-se de que ele (a) não tenha acesso a meios para provocar a própria morte (por exemplo, pesticidas, armas de fogo ou medicamentos) em casa.
  • Fique em contato para acompanhar como a pessoa está passando e o que está fazendo.

Para cada suicídio, 25 pessoas fazem uma tentativa outras tantas apresentam pensamentos de morte ou ideação suicida. A identificação do risco e a implementação de medidas de suporte e de atendimento especializado são fundamentais para que finais trágicos sejam evitados. Ainda, é importante sinalizar que para cada suicídio, cinco a dez pessoas (familiares, amigos) são afetadas social, emocional e economicamente.

Onde buscar ajuda para prevenir o suicídio?

  • CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde).
  • UPA 24H, SAMU 192, Proto Socorro; Hospitais
  • Centro de Valorização da Vida – 188 (ligação gratuita). Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

Por Felipe Ornell

REFERÊNCIAS: 

1. Setembro Amarelo - Prevenção ao Suicídio - Brasil 2020: https://www.setembroamarelo.com.

2. World Health Organization (WHO). Suicide Prevention | Myths and Facts about Suicide (social media cards) 2020 Available from: https://www.paho.org/hq/index.php?option=com_topics&view=rdmore&cid=10375&item=suicide-prevention&cat=communication&type=myths-and-facts-about-suicide-social-media-cards&Itemid=72367⟨=pt.

3. Rodrigues C.D., de Souza D.S., Rodrigues H.M., Konstantyner T. Trends in suicide rates in Brazil from 1997 to 2015. Braz J Psychiatry. 2019.

4. World Health Organization (WHO). Suicide data: World Health Organization; 2019. Available from: https://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/.

5. Bachmann S. Epidemiology of Suicide and the Psychiatric Perspective. International journal of environmental research and public health. 2018;15(7):1425.

6. Scaini, G., Quevedo, J. Suicide rates in the United States continue to rise. Are rates in Brazil underestimated? Braz J Psychiatry. 2018;40(4):347-8.

7. World Health Organization (WHO). Prevention of suicidal behaviours: a task for all. 2012. Available from: https://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/information/en/

8. Coleção Guia de Referência Rápida. Avaliação do Risco de Suicídio e sua Prevenção. Versão Profissional. 1ª ed. Rio de Janeiro, 2016. Available from: https://subpav.org/download/prot/Guia_Suicidio.pdf

9. Ministério da Saúde. Prevenção ao suicídio: como ajudar, saber e agir. Available from:  https://www.saude.gov.br/component/content/article/851-saude-mental/41440-prevencao-do-suicidio

 

 

 

 

 

 

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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