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08.09.20

Suicídio | O elefante na sala

Felipe Ornell


Provavelmente você já foi surpreendido com a notícia trágica de que alguma pessoa próxima cometeu (ou tentou) suicídio. Possivelmente este episódio mobilizou emoções profundas – tristeza, negação, raiva, culpa, decepção, incredulidade – geralmente seguidas de indagações pautadas em um questionamento central: por quê?

O que leva uma pessoa tentar (ou cometer) suicídio?

Quais as motivações por trás deste ato extremo?

Será que não havia outra saída?

Por que a ajuda não foi solicitada?

O que poderia ter sido feito?

Embora as motivações possam ser heterogêneas, uma coisa é certa: a intenção por trás do ato suicida não é acabar com a vida, mas com o sofrimento; intenso, prolongado e muitas vezes vivido silenciosamente sob uma máscara de felicidade.

Fatores de risco

A etiologia do suicídio é heterogênea, porém, atualmente, sabe-se que a ocorrência de tentativas anteriores e a presença de transtornos psiquiátricos, principalmente em fase aguda ou não tratados (1) (incluindo o uso de substâncias), são os fatores de risco mais bem estabelecidos (2). Outros precipitantes, como ruptura de relacionamentos conjugais e interpessoais, estressores ocupacionais, problemas financeiros e a ocorrência de abusos, principalmente sexual, podem potencializar o risco. Além disso, a intoxicação por substâncias no momento do ato também tem sido bem relatada (3).

Epidemiologia

O suicídio é um problema de saúde global complexo que está entre as três principais causas de morte em indivíduos de 15 a 44 anos. Atualmente, esta condição corresponde a 1,4% das mortes prematuras em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 800 mil suicídios são documentados a cada ano, o que corresponde a uma morte autoinfligida consumada a cada 40 segundos. Além disso, estima-se que para cada morte por suicídio existam 20 outras tentativas, eventualmente não relatadas.

O Brasil é o oitavo país com maior número de suicídios, atrás da Índia, China, Estados Unidos, Rússia, Japão, Coreia do Sul e Paquistão (4, 5). Estima-se que 32 brasileiros tiram a própria vida a cada dia, somando mais mortes que a AIDS e que a maioria dos tipos de câncer. Além disso, o Rio Grande do Sul desperta preocupação acentuada, já que concentra as maiores taxas entre todos os estados brasileiros, dez suicídios por cem mil habitantes.

Ainda é importante ressaltar que, quando acontece o suicídio, cerca de seis a dez pessoas são afetadas. Isso também ocorre diante de tentativas não consumadas. Assim, o suporte precisa contemplar também a família.

O elefante na sala

Durante muito tempo o suicídio foi negligenciado, tratado como um elefante na sala, metáfora americana usada para se referir a situações em que existe algum problema óbvio ou uma situação delicada sobre a qual as pessoas evitam comentar. Talvez pela ideia equivocada de que falar sobre o tema poderia de alguma forma aumentar os índices, talvez pelo medo de não saber manejar um eventual relato de ideação (6). Nos últimos cinco anos, entretanto, uma iniciativa pautada em modificar esta realidade tem se popularizado, o “Setembro Amarelo”. Esta campanha tem como finalidade fomentar debates sobre o suicídio e alertar a população sobre a importância da discussão sobre o tema e do desenvolvimento de estratégias de prevenção (3).

Mitos sobre o suicídio (7, 8)

  • Somente pessoas com transtornos mentais cometem suicídio.
  • As pessoas que ameaçam se matar querem apenas chamar a atenção.
  • Falar sobre suicídio pode encorajar tentativas.
  • A maioria dos suicídios acontece repentinamente, sem aviso.
  • Pessoas inteligentes não se matam.
  • Nunca vi nenhum caso de suicídio.
  • Isso está longe de mim.
  • Quem pensa em se matar fica triste o tempo todo.
  • Pessoas que pensam em se matar estão, obrigatoriamente, deprimidas.
  • No Brasil, o número de suicídios vem diminuindo.
  • Homens e mulheres utilizam os mesmos métodos de suicídio. 
  • Quando alguém sobrevive à tentativa de suicídio é sinal de que vai ficar tudo bem.
  • Depois do tratamento, não há risco de nova tentativa de suicídio.

Nas próximas semanas, iremos abordar esta temática mais profundamente. Nunca é demais lembrar que você não está sozinho. A CAA/RS oferece atendimento presencial com condições especiais para a advocacia (você pode encontrar um conveniado clicando AQUI), ou on-line (clicando AQUI). 

Felipe Ornell, psicólogo

 

Referências

 

1.         Arsenault-Lapierre G, Kim C, Turecki G. Psychiatric diagnoses in 3275 suicides: a meta-analysis. BMC Psychiatry. 2004;4:37.

2.         Yuodelis-Flores C, Ries RK. Addiction and suicide: A review. The American journal on addictions. 2015;24(2).

3.         Setembro Amarelo - Prevenção ao Suicídio - Brasil 2020 [Available from: https://www.setembroamarelo.com.

4.         World Health Organization. Preventing suicide: a resource for media  professionals, update 2017.   Geneva; 2017.   .

5.         WHO. WHO | Suicide data: World Health Organization; 2019 [updated 2019-09-27 09:09:02. Available from: https://www.who.int/mental_health/prevention/suicide/suicideprevent/en/.

6.         Suicide IoMUCoPaPoAaA, Goldsmith S, Pellmar T, Kleinman A, Bunney W. Barriers to Effective Treatment and Intervention. 2002.

7.         OPAS-WHO. Suicide Prevention | Myths and Facts about Suicide (social media cards) 2020 [Available from: https://www.paho.org/hq/index.php?option=com_topics&view=rdmore&cid=10375&item=suicide-prevention&cat=communication&type=myths-and-facts-about-suicide-social-media-cards&Itemid=72367⟨=pt.

8.         Geara GB. Suicídio: seus 10 maiores mitos e como a terapia pode ajudar 2020 [updated 2020-03-04. Available from: https://blog.psicologiaviva.com.br/10-maiores-mitos-sobre-suicidio/

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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