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28.07.20   |  TRANSTORNOS DE ANSIEDADE

Pílulas de concentração: os riscos do doping cognitivo

Felipe Ornell


“Pílula da inteligência" ou "droga dos concurseiros”, certamente você já ouviu falar do Metilfenidato. Vendida no Brasil com os nomes comerciais de Ritalina, Ritalina LA e Concerta, é uma droga frequentemente utilizada por estudantes, que recorrem à substância com a expectativa de melhorar o desempenho acadêmico por meio da redução da fadiga e melhora das funções cognitivas: atenção, concentração e memória (1).

Esta medicação, de fato, melhora a cognição?

Inicialmente, é importante entender que o metilfenidato é um agente estimulante do sistema nervoso central cuja prescrição está indicada, principalmente, para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e da Narcolepsia. Quando utilizado com tais indicações, o medicamento potencializa a concentração, diminui a perda de foco, melhora o desempenho e reduz a impulsividade (2). Porém, em indivíduos sem TDAH, estudos demonstram que não ocorre a melhora desejada nas funções cognitivas – podendo ocorrer, no entanto, um relato subjetivo de bem estar, decorrente do efeito placebo ou dos efeitos no sistema cerebral de recompensa (3). Desse modo, sua prescrição nesse contexto é motivo de controvérsia entre especialistas da área (4).

Há riscos envolvidos na sua utilização para estudar?

Especificamente, nesse cenário, não há uma conclusão estabelecida. Porém, mesmo a utilização terapêutica está sujeita a eventos adversos; e, por isso, exige avaliação clínica de segurança em cada caso e monitoramento dos efeitos colaterais (5). Em pacientes com algumas condições - como glaucoma, hipertensão, tiques motores, síndrome de Tourette, uso de inibidores da monoamina oxidase, entre outras – o uso é delicado e, por vezes, contraindicado. Também a coexistência de sintomas de depressão, ansiedade, agitação, agressividade, psicose ou mania recém-iniciadas e ideação suicida prévia podem gerar efeitos colaterais mais acentuados ou aumentar sintomas preexistentes. Além disso, o uso concomitante com outras drogas — como o álcool por exemplo — pode levar a quadros clínicos adversos, como a depressão respiratória grave (6). De forma resumida, os possíveis efeitos adversos do Metilfenidato são: redução no apetite, confusão mental, nervosismo, agitação, ansiedade, insônia, paranoia, fadiga, dor no peito, taquicardia, alterações na pressão sanguínea, náusea e vômito, alucinações, convulsões, dor de cabeça, overdose, depressão respiratória, hipersensibilidade e ataques de pânico. Naturalmente, a ocorrência tem frequência variável e também pode estar relacionada à dose e sofrer influência da interação com outros medicamentos de uso diário. Assim, sua utilização segura precisa ser avaliada e prescrita por seu médico de família ou psiquiatra.

Usar Ritalina vicia?

Apesar do mecanismo exato de ação do metilfenidato ser diferente do das anfetaminas e da cocaína, o efeito final é similar: o aumento da dopamina em algumas regiões do cérebro. Isso explica o risco de abuso desta medicação e ressalta a necessidade de cautela na utilização (7). O uso indiscriminado pode levar ao desenvolvimento de sintomas como tolerância, abstinência, uso compulsivo, depressão e ansiedade - condições semelhantes as evidenciadas em usuários de cocaína e crack. Além disso, é comum que pessoas que desenvolvem a dependência também recorram a outras substâncias para minimizar os efeitos (maconha, álcool e benzodiazepínicos, por exemplo).

Apesar de se tratar de uma substância controlada e com utilização restrita, houve um aumento de 775% no consumo de metilfenidato no Brasil entre 2004 e 2014 (8), e estima-se que uma grande parcela dos usuários não apresente indicação terapêutica (9). Um grande estudo realizado na Europa, demonstrou que o uso do Metilfenidato em adultos cresceu em uma proporção maior do que a evidenciada em crianças, porém, o TDAH inicia tipicamente na infância. Assim, apesar da possibilidade de diagnóstico tardio, estima-se que o uso entre adultos possa ser motivado por outras causas: sintomas de outras comorbidades psiquiátricas, doping cognitivo ou uso recreativo frequentemente associado a outras drogas (10).

Em resumo: é importante que o uso de Metilfenidato seja parcimonioso, avaliado por um psiquiatra ou médico de família com experiência em saúde mental, que poderão avaliar o diagnóstico corretamente e assim ponderar a real necessidade de prescrição. Afinal, há outras causas possíveis de dificuldade para estudar - por exemplo, a ansiedade de desempenho, depressão, ansiedade, estresse ou o burnout — que podem ser a verdadeira causa do tratamento. Assim, pessoas sem o diagnóstico de TDAH que utilizam metilfenidato sem prescrição poderiam, buscando a ajuda adequada, se beneficiar de outras estratégias farmacológicas e psicoterapêuticas efetivas e seguras para alcançar seu objetivo.

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Por: Felipe Ornell – Psicólogo

Tamires Bastos – Psiquiatra

 

Referências

 

1.         Freese L, Signor L, Machado C, Ferigolo M, Barros HM. Non-medical use of methylphenidate: a review. Trends in psychiatry and psychotherapy. 2012;34(2).

2.         Verghese C, Abdijadid S. Methylphenidate. StatPearls Publishing; 2020.

3.         Batistela S, Bueno OFA, Vaz LJ, Galduróz JCF. Methylphenidate as a cognitive enhancer in healthy young people. Dement Neuropsychol. 2016;10(2):134-42.

4.         Agay N, Yechiam E, Carmel Z, Levkovitz Y. Methylphenidate enhances cognitive performance in adults with poor baseline capacities regardless of attention-deficit/hyperactivity disorder diagnosis. Journal of clinical psychopharmacology. 2014;34(2).

5.         Storebø OJ, Pedersen N, Ramstad E, Kielsholm ML, Nielsen SS, Krogh HB, et al. Methylphenidate for attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) in children and adolescents – assessment of adverse events in non‐randomised studies. Cochrane Database Syst Rev. 2018;2018(5).

6.         @AddictionCentr. Ritalin Addiction, Abuse and Treatment - Find Treatment - Addiction Center. 2020.

7.         Morton WA, Stockton GG. Methylphenidate Abuse and Psychiatric Side Effects. Prim Care Companion J Clin Psychiatry. 2000;2(5):159-64.

8.         Domitrovic N, Caliman LV. As controvérsias sócio-históricas das práticas farmacológicas com o metilfenidato. Psicologia & Sociedade. 2017;29.

9.         ARRUDA, M. A. TDAH no Brasil, o que a Folha de SP não mostrou. Instituto Glia, 2011. Disponível em: < http://www.aprendercrianca.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=291:tdah-no-brasil-o-que-a-folha-de-sp-nao-mostrou&catid=1:timas&Itemid=147>. Acesso em: 27 de julho de 2020  [

10.       Pauly V, Frauger E, Lepelley M, Mallaret M, Boucherie Q, Micallef J. Patterns and profiles of methylphenidate use both in children and adults. Br J Clin Pharmacol. 2018;84(6):1215-27.

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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