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30.06.20   |  TRANSTORNOS POR USO DE SUBSTÂNCIAS

Do cafezinho a ritalina: a linha tênue entre o alívio e o precipício

Felipe Ornell


Álcool para descontrair, tabaco para reduzir a ansiedade, maconha para relaxar, calmantes para dormir, café para acordar, ritalina para melhorar a performance. Apesar de todo o tabu que permeia a discussão sobre drogas, elas estão muito presentes na sociedade e isso definitivamente não é um fenômeno recente, tampouco restrito a populações e pessoas socialmente vulneráveis. Uma grande parte das pessoas fará uso de alguma substância (lícita ou ilícita) durante a vida (1). E não estamos nos referindo necessariamente a drogas como o crack ou a heroína, que são carregadas de estigmas, mas talvez ao café nosso de cada dia e a champanhe do réveillon (2). Possivelmente, quem está lendo este artigo já experimentou, ou tem pessoas próximas que já usaram alguma substância; destas, um subgrupo possivelmente evoluiu ou evoluirá para um consumo problemático e uma fração menor para consumo grave. Em outros tantos casos, a intensificação do consumo ocorre de forma velada, sem que se perceba que a linha que separa o uso recreativo do uso nocivo foi atravessada.

Mas afinal, por que as pessoas usam drogas?

Apesar de não haver uma resposta consensual, sabe-se que a experimentação de substâncias geralmente tem duas finalidades: potencializar a recreação ou automedicar temporariamente algum desconforto psicológico(3, 4). A este respeito, está bem descrito que o estresse crônico é um fator de risco importante para a transição do uso recreativo ou eventual para o consumo problemático. Esta compreensão é particularmente relevante para compreender o fenômeno de uso de substâncias entre advogados e demais profissionais da área jurídica.

Como falamos anteriormente (CLIQUE  AQUI) a Advocacia está entre as profissões com maiores índices de estresse. Não é nenhuma novidade que advogados, promotores, procuradores, juízes, entre outros profissionais da área jurídica trabalham sobre pressão intensa.  Cada processo, cada recurso, cada decisão tem o potencial de transformar a vida das pessoas e de gerar implicações sociais importantes. Isso acarreta uma pressão constante e traz uma responsabilidade considerável, o que pode, frequentemente, impactar no controle emocional e psicológico. Diante disso, o consumo de substâncias pode ser uma válvula de escape sedutora para atenuar a ansiedade, a preocupação, o estresse e a frustração. Também para descontrair depois daquele dia tenso ou para comemorar os resultados positivos daquele processo complexo.

Assim, altas prevalências de consumo de substâncias tem sido vistas no meio jurídico. Prova disso é que nos Estados Unidos, 20,6% dos advogados apresentaram uso problemático de álcool. Além disso, 17% relatou consumo de tabaco, 16% de sedativos, 10% de maconha, 6% de opióides, 5% de estimulantes e 0,8% de cocaína no ano anterior a pesquisa (5). No Rio Grande do Sul, a pesquisa da CAA/RS verificou que 13% dos advogados apresentavam critérios para uso nocivo de álcool e 7% de tabaco, não havendo dados para outras drogas (6).

E quando que o uso recreativo se torna  problemático?

Observa-se que a dependência é caracterizada, entre outras coisas, por três características principais (7):

a)    Tolerância: após um período de consumo frequente, a dose precisa ser aumentada para chegar em um efeito que antes era alcançado com uma dose menor;

b)    Fissura: desejo urgente de usar a substância, frequentemente associado a desconforto emocional (alteração no humor, ansiedade, irritação, tristeza...);

c)    Sintomas de abstinência: quando o uso não é realizado (ou é reduzido) a pessoa apresenta sintomas físicos (tremor, náuseas, dores de cabeça, vertigem) e emocionais.

Ressalta-se que estes sintomas não surgem de um dia para o outro, ou pelo menos não na maioria dos casos - trata-se de um processo gradativo. Atualmente, sabemos que o uso problemático de substâncias danifica o funcionamento cerebral (8, 9), principalmente em áreas relacionadas a recompensa, motivação, além de funções cognitivas, controle inibitório, planejamento e memória (10-12), e estas alterações estão na base da dificuldade em resistir ao consumo. Assim, é muito comum que os prejuízos de um consumo problemático invadam questões pessoais (brigas, términos de relacionamento, descontrole financeiro) e profissionais (diminuição do rendimento, perda de capacidade de concentração), trazendo inúmeros prejuízos. Além disso, ver a dependência química como uma doença biológica, que altera anatomicamente e fisiologicamente o organismo, nos permite afirmar que, apesar da motivação ser um elemento fundamental para o sucesso do tratamento, a interrupção do consumo não depende apenas de força de vontade (13).

Se o preconceito já dificulta a busca pelo tratamento para outras condições mentais (como a depressão, por exemplo) na dependência química, isso é ainda mais complexo, principalmente porque há uma falta ideia de que o tratamento é restrito a internação. Atualmente há várias modalidades de tratamento tanto farmacológico quanto psicoterápico, o que nem sempre envolve internação hospitalar ou em comunidades terapêuticas. A verdade é que o consumo de substâncias pode ser uma condição de saúde séria, que demanda orientação profissional e tratamento adequado e orientado para as necessidades de cada pessoa.

Dia 26 de junho foi o dia internacional contra o abuso e o tráfico ilícito de drogas. Diante disso, e da relevância do assunto no meio jurídico, iremos  trazer mais informações sobre a temática de drogas nas próximas publicações. E se você está em tratamento, e precisa de um auxílio financeiro para mantê-lo, a CAA/RS pode te ajudar. Recentemente, a entidade lançou uma série de novos auxílios, que pretendem amparar os colegas advogados e advogadas em momentos de temporária dificuldade financeira. Um deles é o Auxílio Superação, voltado àqueles que comprovarem internação para tratamento, de dependência química e/ou alcoólica. CLIQUE AQUI e saiba mais a respeito.

Felipe Ornell – Psicólogo, Especialista em Dependência Química, Mestre em Psiquiatria com ênfase em Dependência Química.

Juliana Nichterwitz Scherer – Biomédica, Doutora em Psiquiatria com ênfase em Dependência Química

 

Fontes

1.         WHO. The world health report 2001: mental health: new understanding new hope. World Health Organization. Geneva; WHO; 2001. XVIII,178 p. 2001.

2.         Laranjeira R, Madruga CS. II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) –2012. São Paulo: Cromosete Gráfica e Editora Ltda; 2012.

3.         Khantzian EJ. The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harv Rev Psychiatry. 1997;4(5):231-44.

4.         Narvaez JCM, Ornell F, Kessler F, Von Diemen L, Magalhães PVS. Chapter 57 - Comorbidities Associated With the Use and Misuse of Crack Cocaine. In: Preedy VR, editor. The Neuroscience of Cocaine. San Diego: Academic Press; 2017. p. 567-76.

5.         Krill PR, Johnson R, Albert L. The Prevalence of Substance Use and Other Mental Health Concerns Among American Attorneys. J Addict Med. 2016;10(1):46-52.

6.         Bee-Touch. I Mapeamento de Saúde da Caixa dos Advogados do Rio Grande do Sul. 2018.

7.         APA. Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders -  DSM - 5. 5th.ed. Washington: American Psychiatric Association (APA), 2013.  DSM -IV-TR TM. 2013.

8.         Robinson TE, Berridge KC. The neural basis of drug craving: an incentive-sensitization theory of addiction. Brain Res Brain Res Rev. 1993;18(3):247-91.

9.         Robinson TE, Berridge KC. Incentive-sensitization and addiction. Addiction. 2001;96(1):103-14.

10.       Robinson TE, Berridge KC. Review. The incentive sensitization theory of addiction: some current issues. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci. 2008;363(1507):3137-46.

11.       Volkow ND, Wang GJ, Fowler JS, Tomasi D, Telang F, Baler R. Addiction: decreased reward sensitivity and increased expectation sensitivity conspire to overwhelm the brain's control circuit. Bioessays. 2010;32(9):748-55.

12.       Koob GF, Volkow ND. Neurocircuitry of addiction. Neuropsychopharmacology. 2010;35(1):217-38.

13.       Volkow ND, Koob G. Brain disease model of addiction: why is it so controversial? The lancet Psychiatry. 2015;2(8):677-9.

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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