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16.06.20   |  TRANSTORNOS DE ANSIEDADE

Timidez ou fobia? | Quando o medo invade o Tribunal

Felipe Ornell


Desconforto intenso em situações sociais e medo do desempenho, especialmente quando se está no centro das atenções. Preocupação excessiva com o julgamento negativo e hipersensibilidade às críticas. Falar em público não ocasiona apenas nervosismo transitório, mas pavor intenso acompanhado de sinais físicos (aumento dos batimentos cardíacos, tensão muscular, sudorese, rubor facial, falta de ar, sintomas gastrointestinais, tremor nas mãos, gagueira) e sintomas mentais (apreensão, ansiedade, bloqueios no pensamento e lapsos de memória). Agora, imaginem isso tudo acontecendo no momento em que o objetivo é advogar pelos interesses do cliente. Desastroso, não é?

Se identificou? É possível que você esteja passando por um quadro de Ansiedade Social.

O Transtorno de Ansiedade Social (TAS), ou Fobia Social, é uma condição crônica, que se caracteriza por um medo acentuado, persistente e desproporcional de situações sociais ou de desempenho, nas quais o indivíduo teme se sentir envergonhado ou embaraçado. Os principais medos estão relacionados à exposição, como parecer ridículo, dizer coisas inapropriadas, ser observado pelas outras pessoas, interagir com estranhos ou pessoas do sexo oposto, ser o centro das atenções, comer, beber ou escrever em público, falar ao telefone e usar banheiros públicos.

Existem dois tipos de fobia social: a circunscrita, onde o temor se limita a algumas situações sociais; e a generalizada, caracterizada pelo temor a todas ou quase todas as situações sociais. Independente da classificação, é frequente que, diante de sinais mesmo irrisórios (ou fantasiosos) de contestação ou embate (sobretudo diante de figuras de autoridade), ocorra a manifestação de sinais físicos. Na tentativa de disfarçá-los, toda a atenção é direcionada para estes processos, o que prejudica a organização do fluxo mental, podendo gerar a paralização e, de fato, prejudicar a performance. Mesmo não tendo nenhuma relação com despreparo, e sim com ansiedade, o processamento cognitivo diante do fracasso confirma a crença inicial de incapacidade, gerando um ciclo vicioso nocivo: ansiedade – sintomas físicos e mentais – comprometimento da performance – confirmação da crença de incapacidade. A longo prazo isso afeta a auto eficácia e provoca a evitação.

Apesar de gerar sofrimento intenso e prejudicar o desempenho acadêmico, profissional e as relações sociais e afetivas, não é raro que esta condição seja subdiagnosticada. Como consequência, é frequente que as pessoas passem a vida convivendo com esta condição (e se esquivando de situações que acionam a ansiedade) sem procurar ajuda especializada, pois acreditam que se trata de uma característica de personalidade — e que, portanto, não pode ser modificada.

Alguns estudos evidenciaram que a busca por tratamento ocorre em média dez anos depois da apresentação dos primeiros sintomas.  Isso ocorre porque a similaridade com a timidez faz com que os sintomas e o sofrimento sejam minimizados. Na timidez, no entanto, o desconforto é passageiro, restrito a algumas situações, e diminui à medida que a exposição se torna mais frequente e a auto eficácia é fortalecida. Na fobia social o movimento é contrário: a medida em que a exposição se intensifica, os sintomas também se intensificam, gerando evitação e isolamento.

 No Direito, uma área atravessada pelo estresse constante, e onde as interações sociais fazem parte do cotidiano, os efeitos da fobia social podem ser ainda mais drásticos. Isso ocorre porque a competição, a argumentação, a persuasão e a resiliência diante de embates estão na base da atuação profissional. Para advogados (as), principalmente quem atua no tribunal do júri, o nervosismo pode comprometer não só a carreira profissional, como a vida de seu cliente.

A boa notícia é que fobia social tem tratamento. Aliás, as evidências de eficácia de protocolos de terapia cognitivo comportamental estão bem descritas. Não é raro que, depois de algumas sessões de terapia, os pacientes verbalizem reações do tipo “não acredito que sofri a vida toda por causa disso”, e “se eu soubesse que o tratamento me ajudaria tanto teria procurado ajuda antes”. Na dúvida se o seu caso é de timidez ou fobia, não espere dez anos para buscar ajuda.

Por Felipe Ornell

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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