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13.04.21

Comportamento | Por que você age desta forma?

Felipe Ornell


 "O que perturba o ser humano não são os fatos, mas a interpretação que ele faz dos fatos”

Epictetus, Século I

“Por que eu me comporto assim?”. Você já deve ter feito este questionamento inúmeras vezes, não é mesmo? Esta não é uma indagação recente, tampouco que possa ser reduzida a uma explicação simplista. Inúmeros estudiosos vem se debruçando sobre esta pauta: filósofos, antropólogos, sociólogos, psicólogos e psiquiatras de diferentes correntes (psicanálise, comportamentalismo, humanismo, entre outras) têm proposto diferentes teorias e, a partir delas, estabelecido métodos terapêuticos específicos. Hoje, abordaremos o tema sobre a ótica de Aaron Beck, psiquiatra americano que desenvolveu a Terapia Cognitivo Comportamental — o método psicoterapêutico com maior evidência científica de eficácia.

“A terapia cognitiva busca aliviar as tensões psicológicas por meio da correção das concepções errôneas. Ao corrigir as crenças errôneas, podemos acabar com as reações excessivas.”

Aaron Beck

Os comportamentos não são fenômenos aleatórios

Para Beck, nossos comportamentos não são fenômenos aleatórios, mas consequências da atividade cognitiva. Ou seja, o que pensamos diante das circunstâncias, sejam elas internas ou externas, reais ou imaginárias, afeta as nossas respostas emocionais e comportamentais. Logo, se a interpretação situacional for equivocada (distorção cognitiva), a resposta comportamental poderá ser disfuncional. Distorções cognitivas são percepções imprecisas e tendenciosas a realidade, que interferem no processamento cognitivo, e afetam a forma de pensar, sentir e agir. Apesar de todos nós cometermos distorções cognitivas, durante o curso de transtorno mentais, é comum que o indivíduo adote um padrão cognitivo predominante (medo, culpa, ansiedade, paranoia...). Assim, sintomas como tristeza, ansiedade e raiva, por exemplo, frequentemente são resultado de distorções cognitivas (falamos sobre distorções cognitivas aqui). 

“Se nosso pensamento fica atolado de significados simbólicos distorcidos, pensamentos ilógicos e interpretações erradas, nos tornamos, de verdade, cegos e surdos.”

Aaron Beck

Mudando comportamentos

Esses pressupostos possibilitam algum grau de previsibilidade diante dos processos cognitivos e comportamentais, e isso é extremamente relevante para entender e modificar scripts. Se você precisa ir ao centro da cidade, por exemplo, e sabe que lá ocorrem muitos roubos e furtos, isso permitirá que você adote medidas preventivas que reduzam o risco de ser assaltado. No processo terapêutico não é muito diferente, a compreensão da arquitetura cognitiva e das respostas comportamentais permite o desenvolvimento de estratégias de gerenciamento prévias aos eventos, o que reduz o elemento surpresa. Assim, três proposições podem ser realizadas:

1.   A atividade cognitiva influencia o comportamento

2.   A atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada

3.   O comportamento pode ser influenciado diante da mudança cognitiva

Isso não é um processo exatamente simples, pois a cognição também envolve crenças e regras que moldam o fluxo cognitivo e a interpretação situacional.

Mudar pensamentos pode não ser suficiente

Apesar da modificação dos pensamentos ser o primeiro passo da terapia, dado o potencial de aumentar a consciência sobre os processos psicológicos e reflexos fisiológicos (taquicardia, sudorese e rubor, por exemplo), possibilitando a redução de sintomas e o manejo das ações, outros elementos também precisam ser considerados. A questão é que a arquitetura cognitiva está subordinada as crenças centrais, ou seja, “as verdades” que construímos desde a infância a respeito de nós mesmos (inteligente, comportado, fraco, incapaz, cauteloso, impulsivo, transgressor...), de quem são as outras pessoas (bondosas, aproveitadoras, confiáveis, traiçoeiras, fracassadas, salvadoras...) e de como é o mundo (perigoso, acolhedor...). Observem que o sentido de certo e errado, aceitável ou não, bom e mau não são estáticos, mas elaborados gradativamente a partir de interpretações subjetivas que envolvem aspectos biológicos, sociais, valores familiares, tendências de temperamento, experiências prévias (boas e ruins) que moldam a percepção dos eventos, a forma de pensar e o “jeito psicológico” de ser. É a partir disso que se desenvolvem as regras, que nada mais são do que estratégias para gerenciar a relação eu – outras pessoas – mundo / futuro.

O processo terapêutico começa com a identificação dos pensamentos automáticos, segue em direção a identificação das regras e por fim contempla as crenças centrais. A reestruturação cognitiva permite que a pessoa mude sua maneira de interpretar e avaliar, em seu plano subjetivo, aquilo que lhe acontece

Como começar a observar distorções cognitivas?

Elenque uma situação que ocasionou alta ativação emocional ou reações comportamentais inadequadas ou excessivas. Responda aos seguintes questionamentos:

  • O que eu estava pensando naquele momento?
  • O que eu senti diante daquilo?
  • Como eu lidei com aquilo (o que eu fiz)?
  • Com eu me senti depois de ter feito isso?
  • Eu tenho usado estas estratégias diante de outras situações?

Depois de responder a estas perguntas pergunte-se:

  • É possível que exista uma explicação alternativa para esta situação que me afetou? (além da minha percepção inicial?)

Este exercício pode te auxiliar a descobrir coisas interessantes sobre a forma como você interpreta eventos cotidianos e pode te ajudar a começar a compreender os seus scripts comportamentais. Por fim, é importante ressaltar que a terapia não tem a finalidade de tornar a pessoa diferente do que ela é, mas sim de possibilitar uma compreensão racional dos processos mentais, gerando comportamentos mais assertivos, adaptativos e a redução do sofrimento.

Ficou interessado em conhecer melhor o seu funcionamento psíquico e os reflexos comportamentais destes processos? A CAA/RS oferece suporte psicológico, presencial ou online com consultas a baixo custo (os valores são parcialmente subsidiados pela CAA/RS).

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Referências

Paulo Knapp. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Artmed. 2009 520 páginas

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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