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06.04.21

Morte | As fases do luto

Felipe Ornell


A morte é a única certeza que temos e, apesar disso, é uma das experiências emocionais mais difíceis. E não é apenas a morte física que dói, mas também a morte simbólica: uma demissão, uma separação, uma realidade que deixou de existir deixando uma lacuna existencial chamada luto. O luto é a reação psicológica que surge diante de uma perda; a dor emocional de ter perdido algo ou alguém significativo em nossas vidas. Esta reação psicológica não tem apenas componentes de caráter emocional, mas também fisiológicos e sociais. Apesar de não haver um “manual de sobrevivência ao luto” diversos modelos explicativos foram criados para tentar compreender como as pessoas lidam com a perda. Uma das teorias mais conhecidas foi desenvolvida por Elizabeth Klüber-Ross e chama-se modelo das cinco fases do luto. Esta proposta postula que, diante do enfrentamento da morte (seja de si próprio ou de uma pessoa querida), as pessoas passam por diversas fases: negação, raiva, barganha, depressão e por fim, a aceitação. Inicialmente, este modelo foi desenvolvido para descrever o processo de enfrentamento da morte de pacientes com doença terminal e, posteriormente, expandido para qualquer tipo de perda (trabalho, amputação de membros, término de uma relação afetiva, perda de um familiar, entre outros). Esta sistemática permite identificar padrões de pensamento e comportamento frequentes durante o processo de luto, o que pode auxiliar no direcionamento de estratégias psicossociais de suporte.

Entendendo as cinco fases do luto

Negação é um mecanismo de defesa comum usado para proteger da dificuldade ou gerenciar uma realidade perturbadora. Kubler-Ross observou que, após o choque inicial de receber um diagnóstico terminal (ou a notícia de uma perda), as pessoas muitas vezes rejeitaram a realidade. Os pacientes podem negar diretamente o diagnóstico, atribuí-lo a testes equivocados, a um médico não qualificado, ou simplesmente evitar conversar sobre o assunto. Embora a negação persistente possa ser deletéria, um período de negação é bastante normal no contexto de uma doença terminal e de luto e pode ser importante para o processamento de informações difíceis. 

Raiva  ocorre quando a realidade é admitida. Pode ser dirigido, culpando provedores de saúde por não prevenirem de forma adequada o desfecho, à membros da família por contribuírem para os riscos ou não serem suficientemente apoiantes, ou a entidades espirituais pela “injustiça”. A raiva também pode ser generalizada e não direcionada, manifestando-se pela irritação ou perda de paciência. Reconhecer a raiva como uma resposta natural pode ajudar as pessoas que convivem com o enlutado a tolerar acusações ofensivas, embora eles devam tomar cuidado para não ignorar as críticas que podem ser justificadas atribuindo-as apenas a um estágio emocional. Certas respostas psicológicas de uma pessoa que passa por essa fase seriam: "por que eu? não é justo!"; "como isso pode acontecer comigo?"; "quem é o culpado?"; "por que isso aconteceria?".

Negociação ou barganha normalmente se manifesta quando os pacientes buscam alguma medida de controle sobre sua doença. A negociação pode ser verbal ou interna e pode ser médica, social ou religiosa. Normalmente, a negociação por uma vida prolongada é feita em troca de um estilo de vida reformado. As barganhas oferecidas pelos pacientes podem ser racionais, como um compromisso de aderir às recomendações de tratamento ou aceitar a ajuda de seus cuidadores, ou podem representar um pensamento mais mágico, como esforços para apaziguar a culpa atribuída incorretamente que eles podem sentir como responsáveis por seu diagnóstico.  Os exemplos incluem a pessoa com doença terminal que "negocia com Deus" para comparecer ao casamento de uma filha, uma tentativa de barganhar por mais tempo para viver em troca de um estilo de vida reformado ou uma frase como "se eu pudesse trocar sua vida pela minha".

A depressão é talvez o mais imediatamente compreensível dos estágios de Kubler-Ross e os pacientes a experimentam com sintomas nada surpreendentes, como tristeza, fadiga e anedonia. Passar algum tempo nos três primeiros estágios é potencialmente um esforço inconsciente para se proteger dessa dor emocional e, embora as ações do possam ser potencialmente mais fáceis de entender, podem ser mais chocantes em justaposição aos comportamentos decorrentes dos primeiros três estágios. Consequentemente, os cuidadores podem precisar fazer um esforço consciente para restaurar a compaixão que pode ter diminuído enquanto cuidavam dos pacientes que progrediam nos três primeiros estágios. Frases comuns nesta etapa são “estou tão triste, por que se preocupar com alguma coisa?"; "eu vou morrer logo, então qual é o ponto?"; "sinto falta da minha amada; por que continuar?". No quarto estágio, o indivíduo se desespera com o reconhecimento de sua mortalidade. Nesse estado, o indivíduo pode ficar em silêncio, recusar visitas e passar a maior parte do tempo triste e taciturno.

Aceitação descreve o reconhecimento da realidade de um diagnóstico difícil sem mais protestar ou lutar contra ele. Os pacientes podem optar por se concentrar em aproveitar o tempo que lhes resta e refletir sobre suas memórias. Eles podem começar a se preparar para a morte de forma prática, planejando seu funeral ou ajudando a prover financeiramente ou emocionalmente seus entes queridos. Muitas vezes é retratado como o último dos estágios de Kubler-Ross e uma espécie de objetivo do processo de morte ou luto mas, embora os cuidadores e profissionais de saúde possam achar esse estágio menos desgastante emocionalmente, é importante lembrar que não é inerentemente mais saudável do que as outras fases. Tal como acontece com a negação, raiva, barganha e depressão, a razão para a compreensão dos estágios tem menos a ver com a promoção de uma progressão fixa e mais a ver com antecipar os pacientes. Frases típicas nesta fase são "vai ficar tudo bem."; "não posso lutar contra isso; posso muito bem me preparar para isso”. As pessoas que estão morrendo podem preceder os sobreviventes nesse estado, que normalmente vem com uma visão calma e retrospectiva para o indivíduo e uma condição estável de emoções.

Não há um manual indicando como lidar com a perda, cada pessoa tem um tempo diferente e estratégias particulares. Porém, entender estas fases pode ser uma ferramenta para reconhecer o próprio estado no processo de superação, e para exercitar a compaixão e prestar suporte para pessoas que estão passando por isso.

Geralmente o luto se resolve de forma gradativa e natural para a maioria das pessoas. Porém, caso os sintomas se prolonguem e o sofrimento passe a interferir no funcionamento cotidiano, é importante buscar auxílio especializado.

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Referências

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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