Jornal da Ordem
Rádio OABRS
Twitter
Facebook
Istagram
Flickr
YouTube
RSS

23.03.21

Relacionamentos abusivos | Entenda o ciclo do abuso

Felipe Ornell


Nos últimos anos a discussão envolvendo relacionamentos abusivos foi consideravelmente ampliada. Apesar disso, a falta de compreensão sobre este tema ainda é comum, sobretudo porque os abusos nem sempre envolvem violência tangível - ou seja, podem ocorrer de forma velada, por meio de privações e abusos mais sutis, o que dificulta a identificação e a interrupção do ciclo de violências.

O que é um relacionamento abusivo?

Para fins de definição, relacionamento abusivo é aquele em que o (a) abusador (a) utiliza o poder para manipular, isolar, privar, violentar, controlar ou explorar a vítima. Isso pode ocorrer por meio de violência física, emocional, financeira ou sexual. É comum que pessoas que vivenciam relacionamentos abusivos não o percebam como tal, inclusive por que a instalação e o agravamento ocorrem de forma progressiva.  É frequente que, diante da expressão de ressalvas e questionamentos motivado pelas condutas abusivas, o (a) abusador justifique os “excessos” como uma demonstração de afeto. Muitas vezes, a vítima fica fixada nas memórias do começo da relação e tem dificuldade para reconhecer e aceitar que as condutas da pessoa são incompatíveis com a representação inicial.

Reconhecendo os abusos

“No começo da relação ele(a) não era assim (...)”. Este é um relato comum de pessoas que vivenciaram relações abusivas. Geralmente os abusadores são sedutores, empenham esforços para encantar e construir uma conexão no início da relação.  As agressões geralmente iniciam de forma sutil e, à medida que evoluem, a vítima se sente confusa, culpada, indigna de afeto e muitas vezes faz tentativas para “reconquistar” o lado bom do (a) agressor (a).

O abuso pode acontecer nas relações pessoais em qualquer idade. É um relacionamento abusivo se você experimentar:

  • Abuso físico - bater, socar, empurrar, morder, chutar ou usar armas
  • Abuso sexual - forçar você a fazer sexo ou assistir pornografia, beijos ou toques indesejados, pressão para não usar anticoncepcionais
  • Estupro - persuadir ou forçar você a fazer sexo quando você não quer
  • Abuso financeiro - tomar ou controlar o dinheiro, forçar a comprar coisas para, forçar a trabalhar ou a não trabalhar
  • Abuso emocional - insultos e xingamentos, isolamento de amigos e familiares, controle de vestimentas e condutas, humilhação

Sinais de alerta de abuso

Se você está em um relacionamento abusivo, pode sentir muitas emoções diferentes. Você também pode notar os sinais em um amigo que pode estar em um relacionamento abusivo.

Os sinais de alerta incluem:

  • Depressão e ansiedade
  • Isolamento da família e amigos
  • Queda no rendimento acadêmico e laboral
  • Ser argumentativo
  • Estar com medo
  • Preocupações sobre deixar o namorado ou namorada com raiva
  • Sinais físicos, como hematomas
  • Uso de drogas e álcool
  • Frequente cancelamento de planos
  • Mudanças na aparência
  • Comportamento sexual de risco

Ciclo de abusos

Ainda na década de 1979 a psicóloga Lenore Walker reportou que os abusos geralmente ocorrem em quatro estágios. O ciclo de quatro partes reconhece que o abuso pode envolver dano verbal ou emocional, mas ainda se concentra principalmente na violência física. Apesar do ciclo não ser rígido, ele fornece elementos para compreender o abuso enquanto processo.

Fase I - Aumento da tensão

Nesse primeiro momento, o agressor mostra-se tenso e irritado por coisas insignificantes (problemas familiares, no trabalho, doenças físicas, fadiga), chegando a ter acessos de raiva. Nesta fase, podem ocorrer episódios de humilhação da vítima, ameaças e destruição de objetos. Na tentativa de acalmar o agressor, a vítima fica aflita e evita qualquer conduta que possa “provocá-lo”. As sensações são muitas: tristeza, angústia, ansiedade, medo e hipervigilância. Em geral, a vítima tende a negar que isso está acontecendo com ela, esconde os fatos das demais pessoas e, muitas vezes, acha que fez algo de errado para justificar o comportamento violento do agressor ou que “ele teve um dia ruim no trabalho”, por exemplo. Esta fase pode durar dias, semanas, meses ou anos

Fase II – “Incidente de abuso”

Nesta fase ocorre a explosão do agressor, ou seja, a falta de controle chega ao limite e leva ao ato violento. Aqui, toda a tensão acumulada na Fase 1 é materializada. Além disso, frequentemente a vítima é culpada pelos “problemas no relacionamento”. O abuso pode envolver:

  • Insultos ou xingamentos
  • Ameaças de dano ou destruição de propriedade
  • Tentativa de controlar seu comportamento
  • Violência sexual ou física
  • Manipulação emocional

Mesmo tendo consciência da agressão e do grande potencial destrutivo em relação à sua vida, o sentimento da vítima é de paralisia e impossibilidade de reação. Aqui, ela sofre de uma tensão psicológica grave (insônia, perda de peso, fadiga constante, ansiedade) e sente medo, ódio, solidão, pena de si mesma, vergonha, confusão e dor.

Fase III - Reconciliação

Após o “incidente de abuso”, a tensão começa gradualmente a diminuir. Na tentativa de superar o abuso, o agressor costuma usar gentileza, presentes e gestos de amor para iniciar um estágio de “lua de mel”. Estes comportamentos desencadeiam a liberação de dopamina e oxitocina, ajudando a ressurgir o sentimento de união e levando a vítima acreditar que o relacionamento “real”  está de volta. Neste período, há uma confusão de sentimentos e a pressão interna para manter o seu relacionamento diante da sociedade. Em outras palavras, os direitos e recursos se perdem diante das promessas de mudança.

Fase IV - Calma 

Há um período relativamente calmo, em que a vítima se sente feliz por constatar os esforços e as mudanças de atitude, lembrando também os momentos bons que tiveram juntos. Para manter a paz e a harmonia, ambas as partes geralmente precisam apresentar algum tipo de explicação ou justificativa para o abuso. O parceiro abusivo pode:

  • Pedir desculpas enquanto culpa os outros
  • Apontar para fatores externos para justificar seu comportamento
  • Minimizar o abuso ou negar que aconteceu
  • Acusar a vítima de provocá-los
  • Eles podem mostrar muito remorso, garantir que isso não acontecerá novamente
  • Parecer mais sintonizados com as necessidades da vítima do que o normal. 

Diante disso, a vítima começa a aceitar as desculpas, e até mesmo duvidar de sua memória do abuso, o que oferece alívio da tensão e da dor física e emocional.

Esse “ciclo” acontece continuamente em relacionamentos abusivos. O período de tempo entre cada repetição pode variar. Frequentemente, diminui com o tempo conforme o abuso aumenta e com o passar do tempo, o período de calma pode se tornar muito curto ou até mesmo desaparecer totalmente do ciclo. Existem outros modelos para explicar o processo de abuso e as táticas utilizadas pelo abusador. Falaremos sobre isso na próxima semana, afinal reconhecer este fenômeno é o primeiro passo para quebrar o ciclo.

Se identificou? Precisa de ajuda? A CAA/RS te oferece auxílio financeiro para superar esta situação (CLIQUE AQUI e saiba mais), e o suporte emocional de centenas de psicólogos, por meio de plataforma de atendimento on-line, com consultas a baixo custo (os valores são parcialmente subsidiados pela CAA/RS).

Marque a sua consulta em www.caars.org.br/psicologia

 

Referências

1              HEALTHLINE. What Is Verbal Abuse? 22 Examples, Patterns to Watch For, What to.  2021.  Disponível em: < https://www.healthline.com/health/mental-health/what-is-verbal-abuse >.

2              ______. Cycle of Abuse: Understanding the 4 Parts.  2021.  Disponível em: < https://www.healthline.com/health/relationships/cycle-of-abuse >.

3              NIDIRECT. Abusive relationships | nidirect. 2015-11-11 2015.  Disponível em: < https://www.nidirect.gov.uk/articles/abusive-relationships >.

4              TALKPACE. Understanding the Cycle of Abuse | Talkspace. 2020-02-11 2020.  Disponível em: < https://www.talkspace.com/blog/cycle-of-abuse-domestic-violence/ >.

felipe para o site.jpg

Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

Encontre um Conveniado
Publicações Relacionadas
REDE DE
PROFISSIONAIS
COMO FUNCIONA
CAA/RS SAUDEMENTAL
Categorias
SERVIÇOS
BOLETIM INFORMATIVO. CADASTRE-SE!
REDES SOCIAIS E FEED
RSS
YouTube
Istagram
Facebook
Twitter
Flickr
JORNAL DA ORDEM
Jornal da Ordem
MAPA DO SITE
Abrir

CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS ADVOGADOS DO RIO GRANDE DO SUL

Rua Washington Luiz, 1110, 5º andar - Centro - CEP 90010-460 - Porto Alegre - RS | (51) 3287.7498 | presidencia@caars.org.br

Envie uma mensagem    |    Mapa de localização

© Copyright 2021 Caixa de Assistência dos Advogados do Rio Grande do Sul    |    Desenvolvido por Desize