Jornal da Ordem
Rádio OABRS
Twitter
Facebook
Istagram
Flickr
YouTube
RSS

16.03.21

Violência doméstica | Muita discussão, pouca compreensão

Felipe Ornell


A violência praticada contra a mulher (ou violência de gênero) é aquela que resulta (ou tem probabilidade de resultar) em dano físico, sexual, psicológico ou sofrimento - incluindo ameaça, coerção e privação arbitrária da liberdade. Frequentemente, a violência ocorre no ambiente familiar, praticada por pessoas que convivem, independente de laços parentais ou vínculos sanguíneos, nestes casos, denomina-se violência doméstica. Ressalta-se que a violência doméstica ocorre independente da classe social e da faixa etária (apesar de ser mais frequente em alguns grupos). Durante a infância, o abuso pode vir dos pais. No período reprodutivo, de parceiros, namorados e ex-companheiros; e na velhice, dos filhos. Além disso, está bem consolidado que a violência cometida pelo parceiro íntimo é a mais prevalente no Brasil.  

Observa-se que a violência doméstica é um problema estrutural, histórico, político-institucional e cultural, reforçado pela naturalização social da mulher em uma posição de fragilidade e do homem em uma posição de força, indolência e razão. Ainda observa-se que, em muitos grupos sociais, a violência é naturalizada, e muitas vezes não é percebida como tal. Frequentemente, as vítimas demonstram vergonha, medo e desconhecimento sobre o que de fato é violência doméstica e sobre o arcabouço legal. Esses fatores dificultam a busca por auxílio. Mesmo quando as mulheres procuram serviços de saúde (devido à presença de lesões físicas, por exemplo) elas podem omitir o problema e raramente fazem queixas espontâneas durante as consultas.

Fatores de risco

A literatura descreve diversos fatores associados à violência doméstica, que perpetuam esta condição para as mulheres, tais como: os antecedentes familiares de atos violentos e abusos, o uso de álcool e drogas pelo parceiro, desemprego, pobreza, baixo nível socioeconômico da vítima, o baixo suporte social ofertado à mulher, a dependência emocional em relação ao agressor, e o desconhecimento sobre a legislação.

Tipos de violência doméstica

Apesar de ser um tema que tem despertado interesse crescente da sociedade, possibilitando a criação de legislações, fluxos de atendimento e medidas de suporte, ainda é um assunto pouco compreendido, sobretudo pela população geral. Muitas vezes, a compreensão equivocada deste fenômeno inibe a identificação dos abusos e a busca por auxílio, impedindo a interrupção do ciclo de violências. O primeiro passo para quebrar este ciclo é compreender o que de fato é violência doméstica. A seguir, iremos apresentar os principais tipos de violência.

Violência física: Entendida como qualquer conduta que ofenda a integridade ou saúde corporal da mulher. São exemplos disso:

  • Espancamento
  • Atirar objetos, sacudir e apertar os braços
  • Estrangulamento ou sufocamento
  • Lesões com objetos cortantes ou perfurantes
  • Ferimentos causados por queimaduras ou armas de fogo
  • Tortura

Violência psicológica: Qualquer conduta que cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões. São exemplos disso:

  • Ameaças
  • Constrangimento
  • Humilhação
  • Manipulação
  • Isolamento (proibir de estudar e viajar ou de falar com amigos e parentes)
  • Vigilância constante
  • Perseguição contumaz
  • Insultos
  • Chantagem
  • Exploração
  • Limitação do direito de ir e vir
  • Ridicularização
  • Tirar a liberdade de crença
  • Distorcer e omitir fatos para deixar a mulher em dúvida sobre a sua memória e sanidade (gaslighting)

Violência sexual: Qualquer conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força. São exemplos disso:

  • Estupro
  • Obrigar a mulher a fazer atos sexuais que causam desconforto ou repulsa
  • Impedir o uso de métodos contraceptivos ou forçar a mulher a abortar
  • Forçar matrimônio, gravidez ou prostituição por meio de coação, chantagem, suborno ou manipulação
  • Limitar ou anular o exercício dos direitos sexuais e reprodutivos da mulher

Violência patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades. São exemplos disso:

  • Controlar o dinheiro
  • Deixar de pagar pensão alimentícia
  • Destruição de documentos pessoais
  • Furto, extorsão ou dano
  • Estelionato
  • Privar de bens, valores ou recursos econômicos
  • Causar danos propositais a objetos da mulher ou dos quais ela goste

Violência moral: É considerada qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.

  • Acusar a mulher de traição
  • Emitir juízos morais sobre a conduta
  • Fazer críticas mentirosas
  • Expor a vida íntima
  • Rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole
  • Desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir

Consequências

Pesquisas prévias sinalizaram que mulheres submetidas a violências tem sentimentos de aniquilação, tristeza, desânimo, solidão, estresse, baixa autoestima, incapacidade, impotência, ódio e inutilidade. Há dados reportando que a exposição a violência pode potencializar o risco de algumas doenças, e transtornos mentais, como por exemplo: obesidade, síndrome do pânico, depressão, transtornos de ansiedade, gastrite, doenças inflamatórias e imunológicas, mutilações, tentativas de suicídio, fraturas e lesões. E também gerar algumas alterações comportamentais, por exemplo, insegurança no trabalho, dificuldade de relacionamento familiar, dificuldades sexuais e obstétricas, tabagismo.

Enfrentamento

O enfrentamento deste problema cabe tanto à esfera da segurança quanto dos direitos humanos e da saúde pública, já que as consequências físicas e psicológicas têm importantes repercussões na dinâmica e funcionamento das famílias e da sociedade. O rompimento do ciclo de violência deve incluir estratégias de apoio e suporte social para que seja possível construir um processo de cuidado a fim de promover a saúde mental. Nas próximas semanas iremos abordar outros tópicos pertinentes a esta temática.

 

Se identificou? Precisa de ajuda? A CAA/RS te oferece auxílio financeiro para superar esta situação (CLIQUE AQUI e saiba mais), e o suporte emocional de centenas de psicólogos, por meio de plataforma de atendimento on-line, com consultas a baixo custo (os valores são parcialmente subsidiados pela CAA/RS). 

Marque a sua consulta em www.caars.org.br/psicologia 

 

Referências

Huecker MR, King KC, Jordan GA, et al. Domestic Violence. [Updated 2021 Feb 17]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2021 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK499891/

Netto, Leônidas de Albuquerque. MOURA, Maria Aparecida V. QUEIROZ, Ana Beatriz A. TYRRELL, Maria Antonieta R. BRAVO, María del Mar P. Violência contra a mulher e suas consequências.

Ornell, Felipe et al . Violência doméstica e consumo de drogas durante a pandemia da COVID-19. Pensando fam.,  Porto Alegre ,  v. 24, n. 1, p. 3-11, jun.  2020 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-494X2020000100002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  15  mar.  2021.

Rezende, Milka de Oliveira. "Violência contra a mulher"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/violencia-contra-a-mulher.htm. Acesso em 15 de março de 2021.

Silva, Lídia Ester Lopes da; oliveira, Maria Liz Cunha de. Violência contra a mulher: revisão sistemática da produção científica nacional no período de 2009 a 2013. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro ,  v. 20, n. 11, p. 3523-3532,  Nov.  2015 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232015001103523&lng=en&nrm=iso>. access on  15  Mar.  2021.  https://doi.org/10.1590/1413-812320152011.11302014.

felipe para o site.jpg

Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

Encontre um Conveniado
Publicações Relacionadas
REDE DE
PROFISSIONAIS
COMO FUNCIONA
CAA/RS SAUDEMENTAL
Categorias
SERVIÇOS
BOLETIM INFORMATIVO. CADASTRE-SE!
REDES SOCIAIS E FEED
RSS
YouTube
Istagram
Facebook
Twitter
Flickr
JORNAL DA ORDEM
Jornal da Ordem
MAPA DO SITE
Abrir

CAIXA DE ASSISTÊNCIA DOS ADVOGADOS DO RIO GRANDE DO SUL

Rua Washington Luiz, 1110, 5º andar - Centro - CEP 90010-460 - Porto Alegre - RS | (51) 3287.7498 | presidencia@caars.org.br

Envie uma mensagem    |    Mapa de localização

© Copyright 2021 Caixa de Assistência dos Advogados do Rio Grande do Sul    |    Desenvolvido por Desize