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05.01.21

Saúde | A capacidade de adaptar-se

Felipe Ornell


Antes de prosseguir com a leitura deste texto pare um momento para refletir e responder a alguns questionamentos:

  • Você está saudável? 
  • Como você sabe? (o que significa, para você, ter saúde?)

Se a sua resposta envolveu a palavra “doença”, talvez este artigo seja relevante para que você possa ampliar a sua concepção, e passe a contemplar a saúde como algo processual e multifatorial rompendo com perspectivas estáticas ou simplistas.

O que significa ter saúde?

Não é raro que a saúde seja compreendida a partir de pressupostos biomédicos, subordinando esta condição a inexistência de doenças físicas ou mentais. Este conceito obviamente é legítimo, apesar de reducionista, pois desconsidera outros elementos que vão além dos aspectos fisiológicos. Na sociedade ocidental, principalmente, é frequente que as pessoas observem o estado de saúde apenas após a apresentação de enfermidades. Neste sentido, medidas de prevenção, proteção e de promoção da saúde são constantemente secundarizadas e as estratégias curativas (as vezes inviáveis) são priorizadas. O famoso “chorar sobre o leite derramado”.

Durante o último século, o conceito de saúde tem sido amplamente discutido e um concepção ampliada tem se solidificado. Ainda na década de quarenta, a Organização Mundial da Saúde propôs que a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Esta proposta - visionária para a época, apesar de utópica - forneceu insights para expandir o olhar sobre este tema. Atualmente, apesar de não haver um consenso, entende-se que a saúde como algo multidimensional que envolve fatores socioeconômicos, biológicos, ambientais, psicológicos e funcionais.

Isso está em linha com a proposta do médico francês Georges Canguilhem, que em 1943, em seu livro “The Normal and the Pathological” rejeitou a ideia de que existissem estados de saúde normais ou anormais. Para Canguilhem, a saúde não é algo definido estatisticamente ou mecanicamente, tampouco uma entidade fixa. Diante disso, ponderou a saúde como a capacidade de se adaptar ao ambiente, ou seja, algo variável de acordo com cada indivíduo, dependendo de suas circunstâncias. Neste sentido, a saúde não é definida pelo médico ou por outros profissionais da saúde, mas pela pessoa, de acordo com suas necessidades funcionais. O papel dos profissionais da saúde é ajudar o indivíduo a se adaptar às suas condições únicas prevalecentes.

A qualidade de vida é mais importante do que a própria vida

Diante do exposto, um outro conceito precisa ser contemplado: a qualidade de vida, que segundo Alexis Carrel é mais importante que a própria vida. Apesar de ser um constructo heterogêneo, de uma forma simplista, poderíamos dizer que qualidade de vida é um conjunto de circunstâncias que garantem o bem-estar de uma pessoa em um determinado contexto, envolvendo bem estar emocional, físico, social e material. Um longo estudo que durou sete décadas e foi liderado pelo psiquiatra George Vaillant, da Harvard University, encontrou alguns elementos universais relacionados à qualidade de vida:

  • A presença do amor na vida.
  • Ter relacionamentos significativos.
  • Não abusar de substâncias psicoativas.
  • Ter um trabalho que gere entusiasmo e forneça o necessário para viver.
  • Manter o otimismo.

De forma semelhante, a psicóloga Carol Ryff, — que tem se dedicado a estudar os fatores ou dimensões que contribuem significativamente para a nossa qualidade de vida — identificou seis critérios que são essenciais para alcançar a autorrealização e a qualidade de vida:

  • Autoaceitação
  • Capacidade de adaptação a condições adversas.
  • Relações sociais positivas
  • Autonomia e funcionalidade
  • Crescimento pessoal
  • Propósitos de vida

Observem que todos os elementos identificados pelos dois pesquisadores são atravessados por um elemento comum: a saúde mental. Parece óbvio mas passa despercebido: não há saúde sem saúde mental. Nem sempre temos controle sobre o ambiente e sobre as coisas, mas a saúde mental permite exercitar o potencial de adaptação mesmo diante de situações adversas. Ao substituir a perfeição da ausência de doenças pela capacidade de resiliência e adaptação, nos aproximamos de uma visão mais compassivo, reconfortante e criativa.

O Janeiro Branco é uma campanha brasileira iniciada em 2014 que busca chamar a atenção para o tema da saúde mental na vida das pessoas. O mês de janeiro foi escolhido porque é neste mês que as pessoas estão mais focadas em resoluções e metas para o ano. A campanha busca incentivar as pessoas a mudarem suas vidas e buscarem o que as faz felizes. Por isso, durante o mês de janeiro, vamos falar sobre saúde (incluindo a saúde mental) a partir de uma perspectiva ampliada, que rompe com a ideia de saúde limitada a ausência de doenças. Esperamos que os textos permitam uma reflexão: do que você precisa para alcançar a qualidade de vida?

 

Referências

Brüssow H. (2013). What is health?. Microbial biotechnology, 6(4), 341–348. https://doi.org/10.1111/1751-7915.12063

Conti A. A. (2018). Historical evolution of the concept of health in Western medicine. Acta bio-medica : Atenei Parmensis, 89(3), 352–354. https://doi.org/10.23750/abm.v89i3.6739

Makoul, G., Clayman, M. L., Lynch, E. B., & Thompson, J. A. (2009). Four concepts of health in America: results of national surveys. Journal of health communication, 14(1), 3–14. https://doi.org/10.1080/10810730802592213

Ryff C. D. (2014). Psychological well-being revisited: advances in the science and practice of eudaimonia. Psychotherapy and psychosomatics, 83(1), 10–28. https://doi.org/10.1159/000353263

Vaillant G. E. (2012). Positive mental health: is there a cross-cultural definition?. World psychiatry : official journal of the World Psychiatric Association (WPA)11(2), 93–99. https://doi.org/10.1016/j.wpsyc.2012.05.006

What is health? The ability to adapt. (2009). Lancet (London, England), 373(9666), 781. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(09)60456-6

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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