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08.12.20

Transtornos alimentares | Quando a vaidade se torna doença

Felipe Ornell


Preocupações com a aparência fazem bem. Exercícios físicos e cuidados com a alimentação também. Mas, como já dizia o ditado popular: tudo o que é de mais faz mal. O excesso de preocupação com o corpo pode levar a condições psiquiátricas graves, envolvendo distorções na imagem corporal e no comportamento alimentar.

A imagem corporal

A imagem corporal é a percepção subjetiva dos indivíduos sobre seu próprio corpo, independentemente da aparência real. Trata-se de uma construção complexa, que compreende pensamentos, sentimentos, avaliações, padrões e expectativas sociais. Distorções são desagradáveis, ​​podem gerar sofrimento intenso e afetar a saúde física e psicológica, influenciando no humor, no funcionamento ocupacional, social e na autoestima. A percepção equivocada da imagem corporal é relativamente comum na população em geral e também é um componente central de várias condições graves, incluindo transtorno dismórfico corporal, e transtornos alimentares como a anorexia nervosa e bulimia nervosa (1, 2). 

Transtornos alimentares

Os transtornos alimentares são fenômenos complexos e multifatoriais, que acometem principalmente mulheres adolescentes e adultas jovens (3). Em geral, o fenômeno inicia na adolescência e, em função das suas características, pode passar despercebido ou ser subestimado, o que pode ocasionar uma janela de tempo longa entre o início do transtorno e a busca pelo tratamento.  De uma forma geral, estas condições envolvem a perturbação da alimentação ou do comportamento alimentar, que costumam incluir dois elementos:

  • Alterações dos tipos de alimentos ou da quantidade consumida.
  • Medidas adotadas para evitar que os alimentos sejam absorvidos (por exemplo, vômito auto induzido, uso de laxantes, exercício físico, entre outros).

Os principais transtornos alimentares são a anorexia nervosa e a bulimia nervosa Estas condições são caracterizadas pela internalização de um ideal de magreza, o que leva a comportamentos extremos de controle de peso. Em ambos, há uma supervalorização do peso e da forma corporal – aliás, nestas pessoas a preocupação com a imagem corporal é de grande importância para a visão de si mesmo, relacionadas a expectativa de aceitação e validação (1).

Anorexia nervosa: é caracterizada pela perda significativa de peso de forma auto induzida, medo intenso de engordar ou parecer gordo. Há uma busca pela magreza e evitação de alimentos, principalmente calóricos. Do ponto de vista psicológico, o que é caracterizada pela distorção da imagem corporal, ou seja, apesar de muito emagrecido, o sujeito se percebe gordo (2). A pessoa com anorexia limita a ingestão de alimentos, mas também pode comer compulsivamente e, em seguida, compensar isso por meio de purgação (por exemplo, ao autoinduzir o vômito, tomar laxantes, ou fazer exercícios físicos). A anorexia nervosa é uma condição de auto inanição, em que as pessoas estão abaixo do peso e se engajam em comportamentos para prevenir o ganho de peso. Inclui pessoas que comem e não comem compulsivamente ou purgam (induzem vômitos ou uso indevido de laxantes / diuréticos) (4).

Bulimia nervosa: tem como características principais os episódios recorrentes de hiperfagia (ingestão excessiva de alimentos) seguida de ato purgativo (indução de vômito, uso de laxantes e diuréticos, exercício físico, entre outros).  Pessoas com bulimia não estão abaixo do peso mas adotam  um ciclo de compulsão alimentar e purgação e / ou jejum / exercícios compulsivos. A gravidade depende do número semanal de episódios (4).

Compulsão alimentar periódica:  é um outro tipo de transtorno alimentar que tem como característica principal o consumo de uma quantidade excessiva  de alimentos em um curto período. Os episódios são acompanhados da sensação de falta de controle sobre o ato de comer, mas não são seguidos de atos purgativos ou outras tentativas de compensar o excesso de alimentos consumidos. Isso ocorre pelo menos uma vez por semana por no mínimo três meses (1, 4).

Quais as consequências dos transtornos alimentares?

Tanto na anorexia quanto na bulimia, o curso e o desfecho são graves e a morbidade e a mortalidade por diversas condições médicas associadas é elevada. Isso isso envolve alterações metabólicas (por exemplo, aumento no colesterol o que aumenta o risco de problemas cardíacos, e hipoglicemia ou hiperglicemia), alterações endócrinas (envolvendo alterações hormonais), anemia,  alterações ósseas ou sobrecarga nas articulações, problemas de pele, como acne, ressecamento e fragilidade e outros, problemas cardiovasculares (alterações na pressão arterial, causando tonturas, desmaios, confusões mentais e alterações visuais) e erosão dentária. Além disso, os transtornos alimentares estão associados ao aumento do risco de suicídio e a comportamentos de automutilação. Em adolescentes, estes transtornos representam a maior taxa de mortalidade entre todas as outras condições psiquiátricas (2, 5).

Tratamento

O tratamento é desafiador, pois não há medicamentos aprovados (2).Frequentemente, os pacientes demonstram resistência ao tratamento e apresentam altas taxas de recidiva (6), o que torna pertinente uma abordagem multidisciplinar envolvendo psicólogo, psiquiatra e nutricionista. A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) é considerada o tratamento de primeira linha (7, 8) e demonstra evidências positivas de eficácia para os transtornos alimentares, resultando na nos sintomas comportamentais e cognitivos (8).

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Felipe Ornell, psicólogo

 

Referências: 

1.         Hay P. Current approach to eating disorders: a clinical update. Intern Med J. 2020;50(1):24-9.

2.         Hosseini SA, Padhy RK. Body Image Distortion. 2020.

3.         Sim LA, McAlpine DE, Grothe KB, Himes SM, Cockerill RG, Clark MM. Identification and treatment of eating disorders in the primary care setting. Mayo Clin Proc. 2010;85(8):746-51.

4.         APA. Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders (DSM-5). Washington: American Psychiatric Association; 2013.

5.         Brown NW. Medical consequences of eating disorders. South Med J. 1985;78(4):403-5.

6.         Sacchetti S, Robinson P, Bogaardt A, Clare A, Ouellet-Courtois C, Luyten P, et al. Reduced mentalizing in patients with bulimia nervosa and features of borderline personality disorder: A case-control study. BMC Psychiatry. 2019;19(1):134.

7.         Agras WS. Cognitive Behavior Therapy for the Eating Disorders. Psychiatr Clin North Am. 2019;42(2):169-79.

8.         Linardon J, Wade TD, de la Piedad Garcia X, Brennan L. The efficacy of cognitive-behavioral therapy for eating disorders: A systematic review and meta-analysis. J Consult Clin Psychol. 2017;85(11):1080-94.

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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