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10.11.20

Saúde Mental e Covid-19 | Os excessos pandêmicos

Felipe Ornell


Como a Covid-19 afetou a sua vida? Quais estratégias você tem utilizado para mitigar os reflexos da pandemia na sua saúde mental? Alguns excessos passaram a fazer parte da sua rotina durante o período de isolamento?

Talvez você tenha se deparado com questionamentos semelhantes a este nos últimos meses, pois em nenhum momento da história moderna se falou tanto em saúde mental como agora. Frente a uma série de medidas extremas implementadas para conter a disseminação do novo Coronavírus, as pessoas precisaram encarar uma nova realidade marcada pela incerteza. A tensão decorrente do risco de contágio, a instabilidade diante dos efeitos socioeconômicos sentidos ou imaginados, a redução das opções de lazer e as ressonâncias da pandemia em tantas outras dimensões da vida se tornaram pautas constantes, incrementadas pela aflição do isolamento.

Apesar das medidas de distanciamento serem essenciais para prevenir a transmissão do vírus, essas estratégias podem potencializar o surgimento de emoções negativas, como irritabilidade, ansiedade, medo, tristeza, raiva e tédio. Estas condições, por sua vez, são gatilhos bem documentados para o consumo de substâncias psicoativas. Como falamos anteriormente AQUI, a teoria da automedicação parte do pressuposto que o consumo de substâncias pode ser uma tentativa disfuncional de lidar com estados emocionais disfóricos, gerando o risco de desenvolvimento da dependência.

Ainda no começo da pandemia, especialistas da saúde mental prospectaram, a partir da análise de crises anteriores, que poderia ocorrer um aumento drástico no abuso de álcool e de outras drogas durante o período de isolamento, o que pode indicar a ampliação dos índices de dependência após a pandemia. Por um lado, é necessário observar que o estresse pandêmico aumenta o risco de intensificação do consumo ou de recaídas em pessoas já usuárias e, por outro, o risco de desenvolvimento do consumo por não usuários. Estes dois cenários ainda são atravessados pela dificuldade de acesso ao tratamento, já que os sistemas de saúde se organizaram para atender prioritariamente as demandas da Covid-19, prejudicando o acesso a saúde mental.

Estudos publicados recentemente corroboraram a hipótese de aumento do consumo de substâncias. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma pesquisa realizada durante a quarentena verificou que 55% dos entrevistados aumentou o consumo de álcool no último mês e, em 18% dos casos, este aumento foi expressivo. Já o aumento no consumo de drogas ilícitas ocorreu em 36% das pessoas avaliadas.

As drogas mais utilizadas foram o álcool (88%), seguido pela maconha (37%), opioides prescritos (15%), benzodiazepínicos (calmantes tarja preta) (11%), estimulantes (10%) e cocaína (9%). Quanto ao motivo por trás do uso, a hipótese da automedicação parece ser legitimada, e os principais fatores associados a intensificação do consumo foram:

  • Reduzir o estresse (53%).
  • Aliviar o tédio (39%).
  • Manejar sintomas de saúde mental, como ansiedade ou depressão (32%).

Estes resultados indicam que muitas pessoas podem estar recorrendo às drogas e ao álcool para lidar com as pressões criadas pelo Coronavírus, e reitera a necessidade de atenção a estas pessoas. O uso de substâncias lícitas ou ilícitas para enfrentar as circunstâncias da vida e lidar com os sintomas de um sofrimento mental pode acarretar o desenvolvimento da dependência. Aliás, a coexistência de transtornos mentais simultâneos a dependência de substâncias é mais uma regra do que uma exceção.  Assim, serviços de apoio a saúde mental que contemplem o tratamento das dependências são mais importantes do que nunca, pois esses recursos podem fornecer auxílio tanto para pessoas que estão em sofrimento quanto para as suas famílias. Atualmente, há boas opções de tratamento (psicológico e psiquiátrico) fornecidos on-line, o que supre a barreira de acesso imposta pelo distanciamento.

Sabemos que advogados foram particularmente prejudicados pela pandemia, pois a greve do Judiciário de 2019, os recessos de final de ano e de Carnaval atrasaram a tramitação de processos e o recebimento de proventos, gerando estressores adicionais. Se você ou um familiar está recorrendo álcool ou as drogas para lidar com a pandemia, há auxílio disponível, a CAA/RS oferece atendimento psicológico presencial com condições especiais para a advocacia (você pode encontrar um conveniado clicando AQUI), ou on-line (clicando AQUI).

Felipe Ornell, psicólogo

  

Referências

 

CDC. (2020a). Mental Health and Coping During COVID-19.

CDC. (2020b, 2020-10-27T04:37:10Z). Pessoas que usam drogas ou têm transtorno por uso de substâncias | COVID-19 | CDC. from https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/need-extra-precautions/other-at-risk-populations/people-who-use-drugs/QA.html

EMCDDA. (2020). COVID-19 and drugs. from https://www.emcdda.europa.eu/topics/covid-19_en

Khantzian, E. J. (1997). The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harv Rev Psychiatry, 4(5), 231-244.

Lagisetty, P. A., Maust, D., Heisler, M., & Bohnert, A. (2017). Physical and Mental Health Comorbidities Associated With Primary Care Visits For Substance Use Disorders. Journal of addiction medicine, 11(2), 161-162.

Ornell, F., Halpern, S. C., Kessler, F. H. P., & Narvaez, J. C. M. (2020). The Impact of the COVID-19 Pandemic on the Mental Health of Healthcare Professionals. Cadernos de saude publica, 36(4).

Ornell, F., Moura, H. F., Scherer, J. N., Pechansky, F., Kessler, F. H. P., & von Diemen, L. (2020). The COVID-19 Pandemic and Its Impact on Substance Use: Implications for Prevention and Treatment. Psychiatry research, 289.

Ornell, F., Schuch, J. B., Sordi, A. O., & Kessler, F. H. P. (2020). "Pandemic Fear" and COVID-19: Mental Health Burden and Strategies. Revista brasileira de psiquiatria (Sao Paulo, Brazil : 1999), 42(3).

The-Recovery-Village. (2020, 2020-05-11). Substance Use on the Rise During COVID-19 Pandemic. from https://www.therecoveryvillage.com/drug-addiction/news/drug-alcohol-use-rising-during-covid/

Volkow, N. D. (2020). Collision of the COVID-19 and Addiction Epidemics Ann Intern Med.

 

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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