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03.11.20

Droga: o que ela faz por você?

Felipe Ornell


– Que fazes aí? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

– Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.

– Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.

– Para esquecer, respondeu o beberrão.

– Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.

– Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.

– Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.

– Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.

E o principezinho foi-se embora, perplexo.

As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.”

O pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

 

Droga: o que ela faz por você?

Por que as pessoas usam drogas? Talvez esta seja a indagação que eu mais escutei durante meus anos de atendimento clínico voltado a pacientes por transtornos por uso de substâncias. Frequentemente, respondo a esta interrogação com outro questionamento: o que a droga te proporciona que você não tem sem ela?

No texto de hoje vou abordar alguns elementos sobre o consumo de drogas, mas sem a ousadia de tentar esgotar o tema, já que isso significaria adotar uma explicação reducionista que, apesar de elucidar alguns aspectos, não contemplaria o todo.

Antes de tudo, cabe destacar que perguntas complexas são incompatíveis com explicações simplistas, e diante deste tema não seria diferente. Os motivos que levam a experimentação e a continuação do consumo de drogas (ou substâncias psicoativas, se preferirem evitar o estigma da palavra “droga”) são heterogêneos. Logo, não há uma explicação universal, mas sim algumas hipóteses explicativas que, em geral, versam sobre um processo multifatorial, que envolve questões genéticas, temperamentais, sociais, além de alterações no cérebro, na cognição, no corpo e no comportamento.

É importante salientar que toda substância com potencial de abuso (independente do mecanismo de ação) gera um aumento temporário da dopamina cerebral, o que em termos práticos significa acionar artificialmente o botão do prazer no sistema cerebral de recompensa. Percebam que situações prazerosas como a comida preparada pela mãe, sexo, fazer uma viagem, chocolate, receber um presente e exercício físico também acionam (a priori) este botão, porém em uma intensidade menor. Partindo do pressuposto que quanto mais dopamina é liberada, maior a consolidação das memórias relacionadas a situação desencadeante, é necessário considerar que as drogas de abuso acionam este botão de uma forma artificial e potencialmente mais intensa. Assim, a memória registrada também é aumentada, aumentando o risco de engajamento em condutas que permitam replicar a sensação.

Diante desta explicação, muitas pessoas questionam o motivo pelo qual muitas pessoas experimentam alguma droga e não se tornam dependentes. Uma das hipóteses explicativas para este fenômeno reside na ideia de automedicação, que sugere que há um sofrimento mental prévio que precede a dependência e que o uso da droga é uma tentativa de reduzir um sofrimento (Mueser, Drake, & Wallach, 1998). Isso significa que substâncias de abuso não são escolhidas aleatoriamente (apesar da primeira experimentação ser em geral aleatória), mas selecionadas em decorrência dos seus efeitos farmacológicos sobre estados internos de disforia (depressão, ansiedade, solidão, sedação, tédio...). Neste sentido, o uso da droga poderia ser uma tentativa de aliviar sintomas emocionais indesejados e desconfortáveis (Bremner, Southwick, Darnell, & Charney, 1996; Harris & Edlund, 2005; Khantzian, 1985, 1997; Tull, Gratz, Aklin, & Lejuez, 2010; Weiser et al., 2003). Sob esta perspectiva, a heroína, por exemplo, poderia ser escolhida pelo seu efeito na redução da raiva, a cocaína pela capacidade de aliviar depressão e hiperatividade, o álcool por aliviar a ansiedade e a depressão,  a nicotina pelo efeito ansiolítico (Mueser et al., 1998) e os benzodiazepínicos de aliviar a ansiedade ou a insônia.

O problema é que, apesar do alívio transitório, com o desenvolvimento da dependência a substância começa a perder o efeito, o prazer começa a ser reduzido, os sintomas disfóricos aumentam e há a necessidade de aumentar a dose. Mais do que isso, é frequente que os pacientes verbalizem que “o botão do prazer” não é mais acionado por outros prazeres cotidianos. Frases como “no começo eu tinha controle, usava para ter prazer, agora eu uso para diminuir a ansiedade. Eu sei que estou me afundando, mas quando tento ficar sem é insuportável” se tornam muito comuns.

Diante disso, sempre que recebo um novo paciente com uso problemático de alguma droga – seja uma medicação controlada, tabaco, álcool ou alguma substância ilícita – eu costumo fazer alguns questionamentos que permitem começar a entender qual foi e qual é a função da substância na vida da pessoa.

Alguns exemplos de perguntas são estes:

  • Como você era antes de consumir a droga?
  • Em que momento e circunstância da sua vida ocorreu a primeira experimentação, e o que a substância te possibilitou NAQUELE momento?
  • Como foi a transição do uso eventual para o uso recorrente?
  • Quais motivos você tem para interromper o uso?
  • Quais motivos você tem para continuar usando?
  • Houve alguma tentativa de interromper o consumo? Ela deu certo?
  • O que a substância te possibilita HOJE que você não consegue alcançar sem ela?
  • Houve alguma tentativa e parar? Como foi?

Estes questionamentos, entre outros, fornecem informações para compreender o caso de forma ampliada e para entender a função da droga na vida da pessoa. A partir disso, pode-se começar a desenvolver estratégias de tratamento, que em geral envolvem técnicas motivacionais, comportamentais, cognitivas e uso de medicações.

Se você está sofrendo em decorrência do uso de alguma substância, se houveram tentativas prévias frustradas de interromper o consumo saiba que você não está sozinho. O problema é complexo, e para que o tratamento tenha maior chance de sucesso é fundamental que além de olhar para a dependência, questões pertinentes a saúde mental sejam consideradas. O primeiro passo para lidar com esta realidade difícil é buscar a ajuda de um profissional capacitado. Lembre-se que a CAA/RS oferece atendimento psicológico presencial com condições especiais para a advocacia (você pode encontrar um conveniado clicando AQUI), ou on-line (clicando AQUI).

Felipe Ornell, psicólogo

Referências: 

Bremner, J. D., Southwick, S. M., Darnell, A., & Charney, D. S. (1996). Chronic PTSD in Vietnam combat veterans: course of illness and substance abuse. Am J Psychiatry, 153(3), 369-375.

Harris, K. M., & Edlund, M. J. (2005). Self-medication of mental health problems: new evidence from a national survey. Health services research, 40(1), 117-134.

Khantzian, E. J. (1985). The self-medication hypothesis of addictive disorders: focus on heroin and cocaine dependence. Am J Psychiatry, 142(11), 1259-1264.

Khantzian, E. J. (1997). The self-medication hypothesis of substance use disorders: a reconsideration and recent applications. Harv Rev Psychiatry, 4(5), 231-244.

Mueser, K. T., Drake, R. E., & Wallach, M. A. (1998). Dual diagnosis: a review of etiological theories. Addict Behav, 23(6), 717-734.

Tull, M. T., Gratz, K. L., Aklin, W. M., & Lejuez, C. W. (2010). A preliminary examination of the relationships between posttraumatic stress symptoms and crack/cocaine, heroin, and alcohol dependence. J Anxiety Disord, 24(1), 55-62.

Weiser, M., Reichenberg, A., Rabinowitz, J., Kaplan, Z., Caspi, A., Yasvizky, R., et al. (2003). Self-reported drug abuse in male adolescents with behavioral disturbances, and follow-up for future schizophrenia. Biol Psychiatry, 54(6), 655-660.

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Felipe Ornell

Psicólogo clínico, possui Residência em Saúde Mental (ESPRS) e especialização em Dependência Química; Mestre e Doutorando em Psiquiatria e Ciências do Comportamento (UFRGS). Pesquisador no Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas - Hospital de Clínicas de Porto Alegre / Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Editor da Revista Brasileira de Psicoterapia. Professor titular do curso de Psicologia da Faculdade IBGEN, Grupo Uniftec e responsável técnico pelo Previne Saúde Mental.


E-mail: felipeornell@gmail.com
Site: http://lattes.cnpq.br/5402861891632171

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